Lula e o Câncer Social

É admirável o que escutamos e lemos atualmente em relação ao caso do nosso ex-presidente Lula. Argumentações implausíveis, sem um mínimo de nexo com a realidade. Para se dizer pouco ainda.

Acima e antes de qualquer coisa, ele não é apenas um ex-presidente ou um militante petista, tão somente um político ou um brasileiro; é um ser humano, e como tal deve ser tratado com todo o respeito e cuidado que nos é reservado.

Poderia usar como premissa o basilar princípio jurídico da igualdade, a nos dizer que devemos “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida em que eles se desigualam”, e defender a posição de que como ex-presidente e como uma figura pública, lhe é permitido tratar qualquer mal que lhe aflija em qualquer hospital que seja; desde o Sírio-Libanês, até mesmo no SUS, se assim bem entender.

Quiça conviesse também citar a tão em voga “dignidade da pessoa humana”, mas este também seria uma forma de tentar justificar uma situação que simplesmente não há que se explicar.

E neste momento eu opto por sair da minha zona de conforto, e escolho não apenas me indignar com o próximo, mas também questioná-lo sobre seus valores.
Todas os que exigem que o ex-presidente se trate no SUS; imagino não possuam plano de saúde o qual possam telefonar e agendarem uma consulta de acordo com a sua rotina. Creio que ao dizerem “Ele deveria ir lá para saber como é!”, é porque sentiram na pele (quase que de forma literal) como é.

Esses mesmos também podem até ter tido a curiosidade de lerem sobre o SUS, seu surgimento, seus princípios, como, onde e de que forma ele atua; mas se esquecerem de ler sobre o sistema público de saúde norte americano e não sabem a calamidade em que ele se encontra, onde impera o lucro astronômico das companhias privadas e é patente o seu sucateamento.

Talvez por isso, por passarem tantos desgostos e por “saberem” o quanto a grama do vizinho é mais verde, queiram impor o SUS como um martírio, e não como uma salvação. Não digo que nosso Sistema Público de Saúde funcione de forma exemplar, entre a sua teoria e a sua prática existem sim, muitas discrepâncias, mas ainda assim podemos dizer que, “em tese”, estamos na frente.

Creio firmemente que estes que assim escrevem, são “cidadãos comuns”, “cidadãos do povo”, mas é claro jamais disseram isto. É algo palpável, que todos nós aos vê-los podemos notar; aparente de tal forma que concluíram terem o direito de exigir que o outro seja tratado como eles.

Mais admirável ainda é que estes mesmos “homens simples” que fazem essa cobrança sem nenhuma mágoa partidária, sem nenhum vínculo pessoal, visando tão somente que Lula dê um exemplo; estes mesmos homens deixaram passar uma oportunidade de ouro de fazerem tão nobre campanha e há tão pouco tempo.

Há pouco menos de três meses um ator global foi diagnosticado com um Linfoma e nenhum dos distintos cidadãos teve a vivacidade de fazer uma campanha como essa. E que se pararmos para pensar foi um grande lapso mesmo, se é impactante um ex-presidente indo ao SUS como uma demonstração de solidariedade com os mais pobres, imaginem o que um global não faria. Já pensaram nisso, um global agindo como um homem comum?

Quem sabe não seria o início de mais uma campanha “plim-plim e você!”, com todos os globais indo ao SUS e mostrando que também “são povo”, também “são gente”. Ou então, para não sermos injustos, aqueles que nunca falaram nada de positivo sobre isso poderiam continuar se tratando com seus médicos caros e hospitais particulares. Afinal, eles não precisam aprender nada sobre isso, né…

Ainda bem que vivemos novos tempos. Em que índios não são queimados e mendigos não são espancados até a morte para a diversão de jovens mimados e que pessoas não são violentadas por exercerem a sua opção sexual. Ainda bem que não temos mais pessoas morrendo de fome e frio nas calçadas das grandes cidades. Já extirpamos todas as mazelas de nossa sociedade de tal modo a podermos então tranquilamente, nos preocupar com a saúde de um homem… ops, de um ex-presidente.

Tempos em que os eleitores sabem votar e tem consciência de que o político não chega lá sozinho, só a custas de coligações e conchavos (que me desculpem os profissionais do marketing), mas ele chega lá com a nossa ajuda. Entendem o poder que emana do seu sufrágio universal, humildemente conhecido como voto.

Tempos esses em que temos ciência de que só mudamos as coisas quando mudamos primeiro a nós mesmo, e assim, o nosso modo de votar. E as pessoas não se prestam a fazerem textos, escreverem cartas e e-mails, desejando isso e aquilo a um “rei posto”; movidos sequer pela pífia desculpa de que isso fará alguma diferença.
Nesses novos tempos esses cidadãos se preocupam é escrever ao seu representante exigindo explicações sobre suas atitudes, porque ele mudou de partido, porque ele votou contra ou a favor de determinada lei.

Fosse de outra maneira poderíamos chegar ao momento em que iríamos nos preocupar em conhecer a história do político de sua cidade, e sabermos se algum dia ele fez algum elogio ao transporte público, por exemplo; para, quem sabe, algum dia ele não venha a sofrer um acidente e possamos forçá-lo a andar de ônibus e ver como é bom.

Para mim e outros tantos ele pode ser apenas um ex-presidente, mas não deixa de ser pai, marido, filho, tio… . Não sei isso tira ou acrescenta algum crédito nessas linhas que traço, mas não tive a má sorte de haver perdido parente tão próximo para uma doença como essa, mas imagino que a dor da perda não esteja vinculada a aquilo que nos tira o que amamos, e sim ao que nos é tirado.

O poeta e metafísico inglês John Donne disse “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. (..)”.

E é o que esta nos faltando neste momento, humanidade. Não se trata de perdoar erros, ou de absolver os pecados; tampouco concordarmos ou não com a política externa, trata-se da compreensão de que ali está, tão simplesmente, um de nós.

D’artagnan

Autocritica

Textos fictícios de uma vida real. Sempre me critico com a mesma veemência que me idolatro. A autocritica já faz parte da minha vida.
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