Sozinho – parte II

Não, dessa vez não há citação de Caetano. É bem verdade também que eu não estava sozinho quando a ideia deste texto me ocorreu. O leitor há de me desculpar, portanto, pelo título ser de tal maneira inadequado. Devo confessar que o pus apenas porque ao me imaginar escrevendo dessa maneira, vi-me com uma continuação do anterior.

Ora, é um tanto curioso como o mundo dá voltas e causa coisas interessantes em nossa vida. Lembro-me de ter escrito aquela carta sem destinatário. Uma carta que jamais te seria entregue e que você de modo algum a leria. Dois anos se passaram desde que falamos. E eu me peguei pensando em ti nos devaneios de minha mente solitária numa noite particularmente inquieta. Pode ter sido um prenúncio de algo que fosse acontecer? Não, eu sei que não era. Nunca acreditei nessas coisas. Para mim, faço o meu destino a cada segundo. Aquilo aconteceu e ponto.

Passaram-se alguns dias desde meu último contato com ela, se posso chamar aquela noite de contato. E era aniversário de um amigo. Havíamos passado a semana anterior saindo sempre. A turma toda. Era como reviver os tempos de ensino médio. Cada noite era, essencialmente, um brinde à essas amizades sinceras. Resolvemos planejar uma festa surpresa. Afinal, somos todos como crianças que estão na faculdade. Não perderíamos a oportunidade.

A mesma turma organizou tudo tendo a mãe desse amigo por comparsa. E fizemos a festa. Minha missão junto de mais duas pessoas era mantê-lo ocupado por tempo suficiente para que se dessem os preparativos finais. Fomos, então, à casa dele. Enrola daqui, enrola dali. Fomos ver um filme. O filme terminou quase que ao mesmo tempo da chegada da mensagem avisando que tudo estava pronto. Pareceu lindamente planejado, apesar de não ter sido. Mais uma desculpa e fomos ao local da festa.

E foi ali que tudo o que havia sido planejado perdeu seu sentido. Entrei e a primeira pessoa notada por meus olhos míopes foi você, senhorita. O texto e mais um milhão de coisas vieram de volta à minha cabeça em menos de um segundo. O que eu faria naquele momento? Respirei fundo, cumprimentei os presentes de modo que eu pudesse evitar entrar em contato contigo. Fui covarde e fugi.

Não deu. Não dava. Fugir de você tinha sido a única maneira que me fez continuar sendo são. Toda a minha sanidade e a aparente normalidade de toda minha vida de dois anos para cá dependia única e exclusivamente de fingir que você nunca tinha existido. Concentrei-me tanto nessa mentira e me acostumei de tal modo a ela que pareceu verdade. Entretanto, de repente lá estava você. A prova cabal de que foi uma mentira.

Evitei de toda maneira possível o contato contigo. Fui tentando restabelecer minha mentira novamente. E não deu. Até que lá para o fim daquela reunião, alguém deu a ideia de jogar Verdade ou Verdade. Por que não? Vamos. Dessa vez fiz questão de sentar ao seu lado. Jamais a garrafa pararia de modo a me forçar a responder uma pergunta sua. E, mesmo que acontecesse, em meu íntimo – e dessa vez de modo sincero –, eu acreditava que o passado não seria mencionado.

Não demorou muito e a garrafa apontou para mim. E quem perguntaria era você. Dentro de mim eu senti um pânico nunca igual eu senti antes. Mas pude manter minhas feições serenas. Não haveria escapatória. Logo eu que tanto preguei que se respondesse a verdade naquele jogo, fiquei verdadeiramente tentado a usar minha faceta de mentiroso profissional e encobrir a verdade dependendo da pergunta que você fizesse. E ela veio:

– Depois de tudo o que aconteceu, você passou a me odiar? Porque, assim, nunca mais veio falar comigo…

Minha alma brilhou de felicidade e tornou-se risonha. Eu não precisaria mentir. De modo algum. Olhei-te nos olhos, desviei o olhar e num sorriso respondi que não. Jamais odiaria. Infelizmente a regra era responder apenas com o “sim” ou com o “não” e eu não pude me explicar.

É bem verdade que minhas ações ou atitudes na época podem ter dado tal impressão. Eu me afastei. Fui frio, sarcástico, até um pouco cínico. Não falei mais contigo. Mas a grande verdade é que, na época, essa foi minha fuga. Porque, como eu disse acima, fui covarde contigo. Sempre fui. E eu fugi.

Ignorar completamente tua existência, seja tirando-te da tua lista de contatos ou te excluindo de qualquer rede social ou apenas evitando fugir da tua presença na vida real foi a maneira de construir minha muralha de sanidade. Perto de ti eu estava para me tornar um louco apaixonado. E, devo confessar, os loucos apaixonados nunca tiveram atitudes de me apetecer o espírito ou de me deixar orgulhoso.

Eu fugi. E perdi amigos no caminho. Ou pessoas que eu considerei como amigos desde então. E hoje tudo é diferente. Você não pareceu ter rancor nenhum. E eu nunca te odiei. Nem odiaria. Não sou capaz disso. Falei contigo aquele dia e falaria de novo. Mágoa é normal. Qualquer rejeição a causa.

Eu sei que não te amo. Talvez nunca tenha amado. Pode ser – e hoje acredito ter sido – apenas uma paixonite adolescente que resolveu fazer um flashback para me pregar uma peça. E vai ser como a outra, uma carta sem destinatário e que jamais será entregue porque nunca quis verdadeiramente te entreg… Opa! Uma mensagem sua?

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Sozinho

Às vezes no silêncio da noite… Eu fico imaginando nós dois… É. Caetano está certo. Na verdade, apenas parcialmente certo. De fato, no silêncio da noite, eu fiquei imaginando nós dois. Mas foi só na noite passada. Era tarde, aliás, mais tarde do que o normal para mim em relação à hora de ir para minha cama. Final de semestre, última prova, eu precisava de nota… Fiquei a estudar e quando, finalmente, conclui que não chegava a absorver dois por cento do que lia, resolvi dormir.

Conclui aquilo que chamo de ritual de antes de dormir com uma certa rapidez: arrumar a cama, escovar os dentes, preparar o material para o dia seguinte, orações e… Deitar. Mas não adormeci como de costume. Nessa noite, meus pensamentos correram quilômetros de distância e foram parar aí na sua casa.

Já fazia tanto tempo desde que te conheci, desde que te amei, desde que me senti traído em meu amor e amizade – porque sim! nós éramos amigos ou, pelo menos, eu me considerava seu amigo – e desisti de você. Por que então pensar novamente em você, senhorita? Eu já me considerava praticamente imune à tua presença, já havia despejado toda minha raiva e angústia em alguns versos rabiscados nas bordas do caderno de literatura ou de física… Já havia me acostumado com a tua ausência e estava completamente habituado a evitar sentir tua lembrança comigo. Mas não naquela noite…

Encostei a cabeça no travesseiro e a partir daquele momento os versos de Caetano passaram a ecoar na minha mente… Não porque eu tinha ouvido, não porque vi alguma referência, aliás nem a tenho no computador. Ela simplesmente estava lá… Límpida e clara. Eu podia sentir o timbre de Caetano e a melodia única e exclusivamente dentro da minha mente sozinha naquele quarto.

E nos imaginei. Meus devaneios foram longe pensando em todos os “se” que poderiam ter mudado radicalmente a minha ou a sua história, quem sabe até ter escrito uma completamente diferente que poderíamos chamar de nossa. Droga! Eu estava tão bem sem você por aqui. Eu não quero mais tudo isso de volta, não quero sentir essa angústia e nem quero mais ficar desesperadamente tentando conseguir uma fagulha de atenção sua. Eu terminei o colégio, você também. Não nos vimos na formatura, eu não queria também. Você se mudou, eu fiquei. Fui para as Humanas e você para Exatas, mais de um ano se passa e você consegue se manter controlando a minha mente sem mover um mísero músculo.

Não consigo compreender. Tornei-me amigo da solidão. Ela já não me trazia nenhum tipo de mal. Eu vivia/vivo bem. Mas aqui dentro eu só ouvia que no silêncio daquela noite eu imaginaria nós dois. Eu só ouvia que eu ficaria ali sonhando acordado juntando o antes, o agora e o depois. Aliás, um antes que foi em conjunto, um agora sozinho e um depois inexistente, puramente hipotético e sem pretensão alguma de se tornar realidade.

A mente continuava aí… Tão longe de mim e da minha realidade, estava bem do seu lado. Em verdade, não sei o que você estava fazendo… Se estudando, lendo, dormindo, festando… Não importa. Eu só pensava que quando a gente gosta, a gente cuida. E eu cuidei de você. Fiz meu melhor ou aquilo que acreditei ser meu melhor. Eu tenho meus desejos e planos secretos, aliás, não tão secretos assim. Você os conhecia e nós compartilhávamos deles, fosse conhecer a Europa ou apenas ir à Serra Gaúcha, fomos sempre iguais.

Eu te juro que me perguntei diversas vezes o porquê de você me esquecer tão rapidamente… Devo ser só um nome num passado, um nome na placa da turma, um rosto que lembra alguém que você conhece, mas você não sabe de onde. Eu me perguntei o que aconteceria se eu me interessasse por alguém… O que você acharia disso ou onde eu e você iríamos parar. No Universo particular da minha mente, aquela realidade distorcida que só acontece aqui dentro, você se importava com cada uma dessas perguntas e suas respectivas respostas. Infelizmente, não consigo manipular a realidade suficientemente bem para me fazer acreditar que isso seria de fato uma verdade real.

Dois anos se passaram desde a última vez que eu falei com você. E tudo é igual. Você lá, eu cá, sozinho e, infelizmente, divagando sobre nós dois. Às vezes me pergunto o que eu mudaria se pudesse retornar naquele fatídico dia em que o brilho de seus olhos e a perspicácia de sua mente me fizeram tornar-me um apaixonado, mas logo em seguida percebo o quão ridículo estou sendo por pensar nisso. Afinal, só sou quem sou hoje e só mudaria o que quer que fosse por conta do que aprendi com as decisões erradas que tomei em relação a nós dois.

Apesar de todos os pesares, senhorita, devo agradecer a você. Eu cresci. Talvez só tenha me dado conta disso hoje, mas cresci. Fiquei amargo um tempo, é verdade. Podem dizer que tornei-me um tanto frio, mas nem tudo é culpa sua. Eu cresci, senhorita. E, apesar de todos os pesares tenho de te agradecer ao menos uma graça concedida por você: ensinou-me a escrever. Foi por causa de ti que resolvi colocar o que eu sentia no papel. Por causa de ti que finalmente notei que as estrofes, rimas, versos, períodos e parágrafos poderiam ser meus amigos e aliviar o peso que eu sentia. Obrigado. E lembre-se: eu cresci.

Você não vai ler esse texto. Tenho certeza. É uma carta sem destinatário. Vai ser aquele texto que eu vou guardar junto com os demais: na terceira gaveta da estante daqui de dentro, ao lado do beijo que nunca dei, do amor que nunca revelei, o abraço que não senti, a oração que não fiz e sendo essa carta aquela a que eu nunca quis verdadeiramente entregar.

João Neves

E hoje foi o fim…

E hoje foi o fim. Deitei ontem para dormir sabendo que hoje seria o fim. Acordei hoje de manhã sabendo que seria o fim. Todas as minhas atividades diárias possuíram como companhia inseparável a fixa ideia de que hoje é o fim.
O sol estava se pondo e o pensamento se tornava cada vez mais fixo na ideia. O sapato outrora atirado a um canto passou a brilhar depois da graxa. A farda estava devidamente limpa e passada. Olhei para ela com certa tristeza. Por que tudo tinha de terminar dessa forma? Senti pela última vez o áspero do uniforme de gala roçar-me a pele e as mãos, já acostumadas ao serviço, a fecharem os botões de modo veloz.
Botões e zíperes fechados, cadarços amarrados, a luva calçada… Tudo estava pronto. Olhei para a minha boina garança, minha fiel companheira nos últimos três anos. No momento, senti como se uma flecha de dor perpassasse a minha alma. Doeu de um modo diferente olhar e saber que seria aquela a última vez.
Já estando no colégio, a tristeza e a dor são brevemente esquecidas. Tantos rostos amigos são encontrados que eu me pergunto o porquê de pensar em tantas despedidas, em tal tristeza sem medida. Foi tudo força do hábito. Impossível não passar por aquele colega e comentar sobre as banalidades de sempre.
A placa da turma foi inaugurada. É estranho agora ver naquela parede de nomes completamente desconhecidos apenas aqueles de quem eu conheço e com quem convivi boa parte da minha vida. E olhem! Olha o meu nome por ali também. Meu nome e o de tantos companheiros agora marcado para a eternidade. Se o desejo de todo ser humano é um dia ser assim, conseguimos.
O chamado do major é insistente. Os alunos formandos devem preparar o grupamento para cerimônia de colação de grau. Colação de grau? Se é assim, prolonguemos então o sofrimento. No local de concentração posso notar que todas as túnicas estão impecavelmente brancas. Brancas como nunca estiveram antes. Uma voz ressoa e é a do sargento nos lembrando de que aquela é a noite da nossa vida.
Pela última vez aqueles cento e tantos alunos marcharam juntos. A última vez… Os últimos toques de corneta. Um general se faz presente, mas ele não é a estrela da noite. De estrelas já bastam os formandos. Dessa vez não foi necessário lembrar de posicionar a boina, de ficar imóvel, de que dedão também é dedo… Nada disso foi preciso.
Veio o Hino Nacional, tantas vezes entoado, mas nunca com tal vibração. E então… Seis picos máximos de lembranças. O discurso da oradora, o discurso do paraninfo, a homenagem aos professores, a última vez com a saudação do colégio, a última vez que entoaríamos a canção do colégio e o juramento do ex-aluno.
Era possível ver que as faces tão altivas no começo, já demonstravam os primeiros sinais de abatimento e da dor da despedida. Algumas lágrimas rolaram de alguns rostos. E então, o ponto maior, o último movimento como alunos do glorioso Colégio Militar de Campo Grande: a coronel-aluno recebe a permissão para comandar o “fora de forma”.
Num movimento combinado, o batalhão se separa, para novamente se agrupar ao som de “CMCG, Brasil”. As boinas são atiradas para cima. Finalmente, acabou. Fogos estouram no céu acima de mim, mas não ligo para eles. Os olhos opacos veem os meus amigos e a sensação é estranha. É um misto de alegria e tristeza, como fogo e gelo se fundindo dentro de mim.
Os diversos momentos são registrados por várias câmeras… Mais tarde, em casa, as mãos, mais uma vez, fazem o serviço o qual estão acostumadas… Abrem cada botão com destreza incrível. Pela última vez, sinto o arrastar áspero da túnica enquanto a tiro. A calça que me aperta, o sapato que me machuca os pés, as meias que me apertam as canelas.
A última vez… Por que tantas vezes isso? Por que a dor que me encerra o peito agora? Por que tudo tem que terminar assim, com um fora de forma e boinas ao ar? E como bem dizem Chester Bennington e Mike Shinoda, “eu tentei e cheguei tão longe, mas, no fim, isso não importa”, sempre há a chance de colocar tudo a perder e a sensação que fica é essa.
Espero sinceramente que isso não aconteça. Que eu e todos os outros cheguemos longe, mas que isso não importe para a manutenção de nossa amizade, para a manutenção do espírito que nos manteve unidos durante todos esses anos. Éramos amigos. Aliás, somos amigos. Continuaremos sendo amigos.
E não se preocupem, esse é o fim, mas é o fim do começo. Preparemo-nos para viver a partir de agora e viver intensamente cada minuto.

João Alcim Souza João Neves, 02/12/2010, em seu último dia de ensino médio, colação de grau.

Beleza

Cibele nasceu com um defeito. Horrível para ela. Imperceptível para as outras pessoas. Seu nariz eras uns três graus torto para a esquerda. Curva praticamente imperceptível, mas abominada por ela. Qual o modo de acabar com isso? Cirurgia plástica. Os pais não queriam, mas ela tanto insistiu que ganhou dos pais o referido procedimento.

Antes não tivessem cedido. O primeiro médico recusou. O segundo também. O terceiro topou. A cirurgia foi marcada e o pré-operatório realizado. Tudo começou bem, o problema foi o pós-operatório. Complicações pósprocedimento e uma infecção hospitalar vinda sabe-se lá de onde ceifaram a vida da jovem Cibele. Mais uma vítima da ditadura da beleza.

A verdade é que Cibele poderia se chamar Ana, Maria, Cláudia ou Rita. Ela representa todas as garotas insatisfeitas com seu corpo. Insatisfações bobas e desnecessárias incentivadas pela indústria da beleza e o excessivo uso do Photoshop.

Garotas andam se inspirando em modelos editadas pelo computador e padrões Barbie irreais e praticamente impossíveis de se realizarem naturalmente num ser humano. Tendo desde pequenas as mentes bombardeadas por essas imagens, tornam-se fracas e entregam-se de corpo e alma a tudo isso.

Não se pode encontrar um culpado. Seria hipocrisia querer colocar a culpa toda em apenas um dos responsáveis. A indústria é sim culpada, mas conta com o auxílio de pais e médicos. A indústria é pelos, já citados, padrões inalcançáveis e excesso de edição. Os pais também são por cederem às pressões das filhas (algumas vezes, dos filhos também) em buscarem a tal cirurgia. E os que dividem a parcela maior de culpa com a indústria: os médicos. Deveriam se negar a realizar esse tipo de procedimento desnecessário.

É uma utopia para alguns, mas, quem sabe, um dia isso muda.

João Alcim Souza João Neves

Eleições

Apesar desse texto “dar nomes aos bois” não é objetivo dele fazer campanha a favor ou contra qualquer candidato. Tanto que o autor quem vos escreve não é afiliado a qualquer partido. O texto tem por finalidade apenas analisar a atual eleição.

2010 foi e continua sendo o ano de eleições. Talvez tenham sido as mais difíceis para a população que vota conscientemente. Processo marcado por acusações e escândalos constantes durante as campanhas eleitorais.  Acusações graves que se fixaram na mente do eleitor e, talvez, tenham causado a maior surpresa: os quase 20% da candidata do Partido Verde (PV), Marina Silva.

Digo que foi surpresa por conta das, contestadas, pesquisas do Datafolha e Vox Populi. A candidata começou com menos de 5% e chegou ao ápice de 11%. Nas eleições, ela consegue mais de 19% dos votos válidos – quase o dobro do obtido nas pesquisas. De onde vieram tantos votos? Ouso dizer que não foi por conta, apenas, da própria campanha da candidata do PV, acredito ter sido “culpa” das desastrosas campanhas eleitorais de seus adversários.

O bom humor de Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, conquistou votos, mas não seria suficiente. Os demais candidatos – Eymael (PSDC), Zé Maria (PSTU), Levy Fidelix (PRTB), Ivan Pinheiro (PCB) e Rui Costa Pimenta (PCO) – não obtiveram uma expressão suficiente para causar a reviravolta nos pontos percentuais verdes. Sobram, então, apenas dois candidatos: a governista (PT) Dilma Roussef e o tucano (PSDB) José Serra.

Ambos degladiaram-se tanto em seus programas eleitorais – que, apesar do nome, não são gratuitos – como nos debates das emissoras televisivas. Não foram elegantes, tampouco preocuparam-se em se concentrar apenas em suas próprias propostas de campanha.

A candidata Dilma Roussef, apoiada pelo atual presidente, Luis Inácio Lula da Silva, parece concentrar-se mais nos feitos do governo atual do que em apresentar novas propostas para o próximo. Deve compreender que não o já feito que é importante; é o que deve ser feito. Ela conquistou pontos ao ser a favor do casamento homossexual no Brasil e a adoção de crianças por esses mesmos casais. Todavia, alcançou a ira das igrejas cristãs, ainda mais depois da descoberta de sua causa abortista. Militares se posicionaram contra ela por conta de um possível congelamento do valor do soldo e reduções orçamentárias.

O candidato José Serra também não é santo. Diversas vezes reagiu de modo adverso, por vezes, agressivo quando questionado. Ele se contradisse várias vezes e sua antipatia custou tantos pontos quanto os que angariou com os públicos geek e nerd ao apoiar o Projeto Jogo Justo de redução de impostos nos games eletrônicos e outros produtos de entretenimento.

Como resumo da ópera, tendo, por base, o resultado do primeiro turno, percebe-se que ambos perderam mais votos do que conquistaram, seja por antipatia ou propostas desagradáveis aos eleitores. Os votos perdidos migraram para a candidata verde ou tornaram-se brancos, nulous ou, por protesto irresponsável, em candidatos sem expressão.

Marina Silva conquistou muitos votos por conta dessa rusga e pelos eleitores jovens, mais adeptos da causa ambiental do que seus pais. E, junto disso, uma questão importante e interessante apareceu: o jovem se tornando mais politizado.

Raros foram os jovens desobrigados de votar que não possuíam uma posição definida ou o desejo de participar da famigerada “festa da democracia”. O jovem foi às urnas decidir o futuro do país. Contrariando a ideia “adulta” de que o jovem é desinteressado. E a maior prova disso foi a não eleição de figurinhas badaladas e carimbadas na política. Tasso Jereissati (PSDB), Arthur Virgílio (PSDB), Marcos Maciel (DEM), José Carlos Aleluia (DEM), César Maia (DEM), José Genoíno (PT) e Fernando Collor de Mello (PTB) não conseguiram continuar na política e ganharam um descanso forçado de quatro anos. Apesar da eleição de Tiririca (PR), Romário (PSB), Bebeto(PDT), Jean Willys (PSOL) e outros com capacidade e intenção duvidosas, parece que a política brasileira passa ou vai passar por renovação. Espera-se que seja oportuna, justa e traga melhorias a todos. Aguardemos.

João Alcim Souza João Neves

Tristeza

Estou triste e esse é um fato, talvez, inerente à minha vida. Não compreendo o que me ocorre. A única coisa que sei é a tristeza que praticamente me abate. Sinto-me, como diriam as orações antigas, um cordeiro levado ao matadouro. A tristeza me consome e eu nem sei ao menos o motivo. Ah! Se eu soubesse.

Uma tristeza tão profunda como a minha é como um verme. E, creio eu, não há nada pior do que sentir o corpo corroído por eles mesmo estando vivo como estou. Isto é, se ainda estou. Eu escrevo e o leitor só lerá depois. Eu morro, mas meu texto permanecerá vivo indefinidamente.

O ruim não é sentir essa tristeza. O que realmente me incomoda é sentir tal coisa dentro de mim e não possuir explicação, causa ou motivo.

Ela veio com calma, bem pequena. Tão pequena a ponto de ser jogada a um canto de minha alma ou minha mente e ser esquecida por um tempo. De repente, a metamorfose lhe ocorrera. Transformou-se em um terrível ser que toma conta de tudo o que sou.

Tento, mas não posso tomar controle de mim mesmo novamente. Estou fora de mim e já não posso voltar. Já não vivo mais em mim. Quem vive agora é minha tristeza. Minha consciência e meu corpo são apenas marionetes de minha própria tristeza.

Meu corpo é apenas apoio. O estranho é encontrar em meus, cada vez mais raros, momentos de lucidez encontro textos. A única coisa que posso imaginar é que meu corpo serve de apoio. Eu escrevo e sei que a caligrafia marcada no papel é minha, mas não fui eu. Como diria o poeta, apoio a caneta e ela escreve por si só.

João Alcim Souza João Neves

PS: O poeta, mais especificamente, o poema ao qual o texto será linkado em breve aqui no blog.

A autocrítica

Narciso era belo, muito belo. Talvez tenha sido um dos seres mais belos que já andou sobre a Terra. Assim era Narciso, todavia ele não possuía consciência dessa beleza encantadora. E seria melhor que não tomasse consciência de tão extraordinário fato.

Num belo dia, estava ele andando pela floresta, parou próximo a um lago. Talvez quisesse beber um pouco de água ali. Narciso não imaginara que o simples gesto de se agacar e se inclinar para a água seria comparável a comer da árvore do fruto do conhecimento do bem e do mal.

Narciso fitou os olhos em seu próprio rosto refletido pelas águas do lago. Seus olhos se abriram e ele se apaixonou por aquela imagem. Não se dava conta de que era ele mesmo ali. A imagem de face tão bela era apaixonante, hipnotizante. E, então, cometeu seu segundo erro: permaneceu ali, estático, a observar a sua bela imagem.

Ali definhou. Morreu por não querer parar de olhar a si mesmo. Entregou-se de corpo e alma à vaidade. Faltou-lhe a autocrítica, o arché de todo o conhecimento de si mesmo. A autocrítica nos faz humanos e deve ser praticada. Essa prática deve ser constante e nunca divulgada e/ou anunciada. A partir do momento em que se diz ou disserta acerda de sua própria autocrítica, se cai no mesmo erro de Narciso: vaidade.

A autocrítica deve ser praticada na solidão e no silêncio de si mesmo. Enquanto se está sentado à mesa e com os olhos fixos em si mesmo do outro lado dela.

João Alcim Souza João Neves

Guerreiro

E estava lá o guerreiro. Imóvel, em posição de ataque. Não era belo, seus traços não cumpriam os padrões de beleza da sociedade da época. Como todo guerreiro, trajava sua armadura.

Na cabeça, portava um elmo. Todo feito num metal prateado, polido e adornado com peças douradas. Revestia-lhe toda a cabeça deixando à mostra apenas os olhos e a boca.

O peito e o abdômen era protegidos por uma cota de malha e algumas camadas de roupa. Utilizava também de grevas e braçais, sem contar a calça de tecido forte e as resistentes botas nas quais seus pés estavam calçadas.

As mãos unidas, segurando o cabo de uma espada. Possuía uma longa lâmina iridescente. O cabo era adornado com pequenos desenhos dourados e uma bela safira.

Frente a ele, o inimigo. Da mesma forma que ele, o inimigo também estava ricamente trajado. O guerreiro erguei a espada. De sua garganta saiu um grito profundo. Saiu correndo, era a hora de enfrentar o adversário. Era a hora de enfrentar um inimigo que apenas ele via.

E naquela rua escura, os poucos viventes que passavam riam daquele mendigo que corria segurando um bastão de madeira…

João Alcim Souza João Neves

Gutembergomaníaco

Nasci em 1993, ligeiramente antes do boom da Internet e de seus livros virtuais e intangíveis. Aos quatro anos, à luz de uma dedicada professora, os mistérios de letras similares a essas que escrevo começaram a se revelar.
A paixão pelos livros não foi imediata, não sei se pela escassez de material na época ou porque a televisão era mais interessante. O fato é que no início do século XXI, mais precisamente no ano 2001, ela veio. Fulminante, arrebatadora e permanente. Tornei-me, como diria Luis Fernando Veríssimo, um gutembergomaníaco, um amante da palavra impressa.
Por que não antes e agora sim? Foi a mudança de colégio. Eu passara a frequentar um colégio mais distante de casa e, por isso, minha mãe se demorava mais para ir buscar-me. Nesse período de ócio pós-aula, trocava o futebol dos garotos pelos livros da bibliotecária.  Comecei pelo setor de infantis, mas passei pouco tempo neles. Perderam a graça rapidamente.
E nessa eterna busca própria pelo toque do papel e da fragrância clássica do livro, eu, mesmo com minha pouca idade, passei para os livros de Thomas Brezina e sua literatura juvenil, amei os da Turma dos Tigres. De Brezina, saltei de autor em autor. De Rowling a Paolini. E então vieram os clássicos…
Náutilus, Nemo e as viagens de Verne, os compridos e ebúrneos caninos de Jack London. Desdêmona, Iago e Otelo de Shakespeare, a letra escarlate de Hawthorne e o terror de Allan Poe. Quanto mais lia, mais queria ler. Devorava livros como um faminto o faz a um prato de comida. Talvez a maior tristeza foi não ter conseguido terminar com os mosqueteiros de Dumas – o dono do livro se mudou e o levou consigo – mesmo que as três leis da robótica de Asimov tenham compensado em parte a perda.
Foi então que Machado apareceu. Os olhos de ressaca e de cigana oblíqua e dissimulada – oblíqua eu não sabia o que era, mas dissimulada… Como sabia… – me encantavam de modo sem igual. E a professora de português que sempre nos estimulava a ler e para cujo discurso nunca liguei provou sua verdade. A leitura melhorou, de fato, as notas.
O frágil e mediano estudante de línguas o qual eu era melhorou, mesmo que sem perceber no momento, sua interpretação e capacidade de inferir sobre os textos que lia. E também desejou que, como tantos livros passaram, outros mais venham e, quem sabe um dia, não lhe venha um com sua própria assinatura e um pedido de autógrafo?

João Alcim Souza João Neves

Palavras, palavrinhas, palavrões

Texto de ficção

Quando era mais novo, li um livro com esse mesmo título. Não me recordo muito bem da história, mas um trecho me marcou. Foi quando a menina personagem principal se questiona sobre o porquê de uma palavra tão pequenina, com apenas duas letras, é chamada palavrão enquanto temos outras imensas (acho que ela pensou em otorrinolaringologista ou inconstitucionalicimamente) são chamadas apenas de palavras.

De fato, mais novos não nos atemos a esses detalhes. O tempo passa, os significados se revelam e o mistério acaba sem nem nos darmos conta. As palavrinhas, que na verdade eram palavrões, passam a entrar no nosso cotidiano e praticamente as esquecemos.

Aí é que chegam para nós as saias justas. Aí complica. Tempos atrás, estava em casa, no computador, lendo alguns sites de notícia e minha sobrinha e afilhada, passando as férias comigo, chegou perto de mim, se apoiando na mesa do computador, parecendo estar encucada com algo.

Perguntei o que era… Quase cuspi o uísque do copo quando ouvi o que era.

– Tio! Posso perguntar uma coisa?

– Claro que pode!

– Ahn… É que… Bom, lá vai… O que é f…?

Foi nesse momento que o uísque quase voou. Porque uma menina de uns nove anos perguntaria aquilo para mim, o tio solteirão? Quase respondi que aquela pergunta era realmente f… de responder.

– Onde você ouviu isso?

– Na escola, ué.

Pronto.  Só falta ter sido a professora ou alguém em quem ela se espelhe. Como vou dizer que ela não deve ficar falando isso? Pensei em pedir o contexto, mas depois imaginei que não fosse bom, provavelmente minha irmã me mataria se eu explicasse tin-tin por tin-tin.

– É besteira, tio?

Ufa. Se algum dia eu vi alguma luz no fim do túnel, foi nesse.

– É sim. É besteira, não é bonito nem elegante.

– Então a gente não pode falar?

– Não, não pode.

– Mas não pode só porque é feio?

– Isso! Muito feio. Não fale mais isso, ok?

Pendenga resolvida. A menina tinha aceitado, eu poderia voltar à minha leitura e ao meu, agora aguado, uísque.

– Tiiio!

Ai! Lá vem.

– Não pode falar, né?

– Não, não pode.

Sorri, ela aprendera.

– Se não pode, porque o senhor fala?

Ai. E agora, José?

João Alcim Souza João Neves

Autocritica

Textos fictícios de uma vida real. Sempre me critico com a mesma veemência que me idolatro. A autocritica já faz parte da minha vida.
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